Hoje peguei um ônibus, Interbairros II, horário de rush. Duas horas dentro do ônibus para chegar em casa. Até aí, tudo bem. Em um momento o ônibus começou a esvaziar. Eu, que estava em pé, peguei um assento no fundo do ônibus e comecei a reparar na galera.
Todos com seus celulares; tinha só uma menina (gatinha, por sinal) que estava como eu, curtindo o rolê do ônibus olhando para o teto e arredores. Talvez tenha acabado a bateria dela, sei lá.
Iniciei uma análise crítica da situação. Cada um com seu celular, na sua bolha. E como são diferentes as bolhas da galera! Ao meu lado, um cara com estilo de pedreiro que gostava de vídeos de gambá. Vi ele passar seguidamente por quatro vídeos de gambá no Instagram. Pira estranha a dele, mas não posso julgar.
Entre as mulheres, as mais idosas ficavam folheando o Google Fotos e galerias por fotos das netinhas, relembrando momentos que talvez sejam os últimos de suas vidas.
A mulherada variava entre Shein, Shopee e Instagram. Bolsas, roupas, tranqueiras chinesas... Esse era o mote de muitas mulheres ali no ônibus, sentadas dando scroll em consumo de acordo com suas capacidades econômicas.
Instagram era a rede social favorita. Ao meu lado, um vileiro típico. Para quem não sabe, um vileiro é alguém que vive nas vilas de Curitiba. Estilo caricato, tinha até uns óculos estilo Oakley, tênis branco e corrente no pescoço. A bolha do cara era o consumo de riqueza. Literalmente. Eram carros de última geração em festivais de automóveis internacionais, eram apartamentos de milhões sendo exibidos na tela do celular. Era tudo o que ele hoje não pode alcançar. Talvez esta bolha reitere a pobreza dele, pegando a linha Interbairros II ao meu lado na hora do rush curitibana.
No mais, um ou outro teclando no WhatsApp. Mas as bolhas que vi eram tão próximas e tão distantes que penso duas vezes se deveria ter feito essa análise social.
E eu ali, com o celular no bolso, olhando para fora, envolto em meus pensamentos. A menina sem celular tendo os pensamentos dela. Um monte de bottoms de anime na mochila. Ou ela tem seus 18-20 anos e não comprou um celular, ou ela é "vida louca" e prefere pensar enquanto está no trânsito. Bom, ela entrou no ponto do Politécnico, deve ser caloura de algum curso da UFPR.
Parei e pensei: e a minha bolha, qual é? Bom, eu devo ter uma, certo? Mesmo sem usar redes sociais e sem tirar o celular do bolso nas duas horas de trajeto.
Certamente um observador de fora teria outras conclusões sobre o ocorrido, me julgaria pela minha bolha frívola e certamente este mesmo observador teria a sua bolha pessoal, que é tão estranha ao olhar externo quanto todas as bolhas que vi hoje voltando para casa.