Xadrez, um jogo de estratégia que pode ser simples ao olhar do leigo mas extremamente complexo em níveis profissionais.
Joguei este jogo entre meus 10 e 14 anos e novamente entre meus 30 e 38 anos. No geral não sou um bom jogador, não a nível profissional. Mas já cheguei a ter pontuação do top 5% de jogadores dos sites em que joguei. Ou seja, também não sou muito ruim.
Chega um momento em que a progressão só ocorre com real estudo de livros e análises mais precisas de partidas e posições. Para quem não joga, se debruçar 30 a 60 minutos em uma posição do tabuleiro buscando a melhor sequencia parece loucura. E eu também acho que todo este tempo é insano. Estudar neste nível por 2 a 3 horas diárias para um resultado melhor em torneios, para mim isto se resume somente a uma coisa…
...EGO
E sim, o jogador de xadrez não permite ser facilmente confrontado ou perder de maneira vexatória. Perder no xadrez é literalmente convencer que você é mais burro que seu oponente, e isto para muitos enxadristas é frustrante. Não são só pontos de rating, é um misto de vitória com orgulho, difícil de explicar. Ganhar não é só ser melhor no jogo, é se sentir mais capaz ou mais inteligente que o oponente. Ganhar seguidas vezes, ou perder seguidas vezes é uma sensação de superação ou fracasso. E a sensação de um plano estruturado funcionar como imaginado no tabuleiro é fantástica.
De um tempo para cá venho abandonado o xadrez, jogado mais contra computadores que pessoas. Não sinto nem orgulho de ganhar um computador e nem vergonha de perder para uma máquina. É bem diferente de campeonatos virtuais ou presenciais. Hoje não vejo o xadrez como uma forma de provar para mim mesmo que sou bom em algo (sendo que realmente nunca fui muito bom). Hoje jogo sem o interesse de antes, visto que ganhar de um BOT não é nada absurdo. Jogo nos níveis 5 e 6 do stockfish no site lichess.com. Com o nível 5 tenho 50% de chance de vitória, com o nível 6 esta chance é uma em 10, 10%. Mesmo assim, me divirto, o jogo faz meu tempo passar, e sem os sentimentos de orgulho e fracasso contra jogadores de carne e osso, o jogo flui bem melhor na minha opinião.
Gosto de puzzles também, mas já não me importo mais com métricas. Pontuação e ranking de puzzle não me interessa mais, só quero resolver problemas em curto tempo (menos de 5 minutos). Puzzles são bons, antigamente eu utilizava o site chess tempo, mas hoje jogo no lichess mesmo, a qualidade dos puzzles melhoraram e eles são estudos de jogos reais, nada artificial.
Hoje não jogo muito, 2 a 5 partidas por dia contra o stockfish, não sei se retorno a jogar com humanos, esta briga de ego boba parece ser infrutífera. Acredito que isto também ocorra em outros jogos competitivos, mas no xadrez chegava a ficar mal por horas após uma derrota em que eu estava com tudo ganho. Estas flutuações de sensações não fazem bem para meu quadro clínico de bipolaridade, e eu sinto que depois que saí do competitivo com humanos minha saúde melhorou de certa forma.
É estranho, 64 casas, 32 peças manipularem os sentimentos humanos desta forma. Jogos no geral têm este poder de alterar as condições dos jogadores. E sim, não precisa ser competitivo, eu também fico puto da vida em jogos de videogame single player com desafios exagerados. A ponto de literalmente alterar meu humor. Acho incrível que a fantasia altera a realidade tão forçadamente. E com o xadrez não é diferente.