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17/06/2026 Livros

Antes meus problemas se resolviam por não iniciar novas experiências. Hoje se configuram por não concluir absolutamente nada. Afinal de contas, é necessário concluir tudo que se consome em termos midiáticos?

Estou pulando de galho em galho, de mídia em mídia sem terminar nada. 20 a 30% do conteúdo experimentado e uma abrupta pausa. Falta de interesse mesmo, ou talvez de interesse em algo novo mais interessante.

Comecei dois livros há algumas semanas atrás. Segundo meu kindle li 27% do primeiro livro e abandonei. Fiz o mesmo com o segundo, antes de 30% do total do livro também encerrei a leitura.

Com jogos o mesmo, RPGs que deveriam durar 30 a 40h para serem concluídos, na minha mão duram 2 a 3h. Aparentemente o interesse em jogar algo por várias semanas ou meses não me aflige tanto assim.

É estranho, pessoas não abandonam filmes, algumas abandonam séries. Mas filmes de 2h são curtos e simples de se aproveitar. Não sei se o meu problema são os jogos, ou se é o fato de eu ter outro livro no kindle pronto para poder ser iniciado. Outro jogo pronto na steam em que einstalo em 20 minutos e já inicio uma experiência nova.

No excesso de experiências não possuo nenhuma experiência que realmente vá do início ao fim.

A partir deste meu texto autoral acima, perguntei ao Google Gemini dicas sobre o fato e ele me respondeu com o seguinte conteúdo: (abaixo gerado por IA)

Podemos analisar esse cenário sob algumas perspectivas filosóficas, sociológicas e psicológicas. Vamos discutir esses pontos:

1. A Ilusão da Escolha e a "Ansiedade do Menu"
Você mencionou o Kindle pronto com o próximo livro e a Steam permitindo instalar um jogo em 20 minutos. Quando o acesso é infinito e imediato, o custo de oportunidade de continuar na mesma experiência se torna artificialmente alto.

Se um livro ou jogo entra em um ritmo mais lento (o que faz parte da estrutura narrativa de qualquer obra longa), a mente imediatamente projeta que outro item da lista poderia estar entregando mais dopamina naquele momento. O filósofo polonês Zygmunt Bauman, ao cunhar o termo "Modernidade Líquida", explicou muito bem esse fenômeno: as relações — inclusive com os objetos de consumo — tornam-se voláteis, maleáveis e focadas na satisfação imediata. Consumir passa a ser mais sobre o ato de buscar e iniciar do que sobre o desfrutar.

2. Experiência (Erfahrung) vs. Vivência (Erlebnis)
O filósofo Walter Benjamin, ainda no século XX, fez uma distinção crucial que se aplica perfeitamente ao seu trecho final ("No excesso de experiências não possuo nenhuma experiência que realmente vá do início ao fim"):

Erlebnis (Vivência): É o choque do momento, o estímulo rápido, a novidade que esvazia a mente por duas horas e depois some. É o "pular de galho em galho".

Erfahrung (Experiência): É aquilo que assimilamos, que exige tempo, que se transforma em memória de longo prazo e molda quem somos.

Ao parar nos 20% ou 30%, você está acumulando vivências (o frescor do início de um RPG, a premissa inicial de um livro), mas a estrutura do mercado atual dificulta que isso se transforme em experiência profunda.

3. É mesmo necessário concluir tudo?
A sua pergunta provoca um excelente debate. O filósofo e pensador francês Pierre Bayard escreveu um livro provocativo chamado Como Falar Sobre os Livros Que Não Lemos, onde ele defende que não precisamos ler cada palavra de uma obra para entender o seu lugar no mundo ou extrair valor dela.

Abandonar um livro ou jogo pode ser um ato de soberania do consumidor: se a obra não entregou o suficiente em 30%, por que gastar mais 70% do seu tempo nela apenas por uma obrigação moral de finalização? O problema surge apenas quando esse abandono gera angústia e a sensação de fragmentação interna, em vez de libertação.

Referenciais de Leitura para aprofundar o tema

Para expandir essa discussão, recomendo fortemente quatro caminhos de leitura que dialogam diretamente com o seu texto:

1. A Sociedade do Cansaço — Byung-Chul Han
O filósofo coreano radicado na Alemanha analisa como a sociedade atual nos transformou em "máquinas de desempenho". Ele discute a perda da capacidade de contemplação profunda e como a nossa atenção se tornou fragmentada (o que ele chama de "hiperatenção"), gerando um tédio que não consegue mais ser produtivo, apenas ansioso.

2. Vida Líquida — Zygmunt Bauman
Neste livro, Bauman explora como a vida na sociedade contemporânea exige que sejamos rápidos e adaptáveis, onde nada deve criar raízes ou durar muito tempo, pois o que é velho (ou o que exige esforço prolongado) é visto como um estorvo. Combina perfeitamente com a dinâmica de descartar mídias na primeira desaceleração.

3. Dez Argumentos para Você Deletar Suas Redes Sociais Agora Mesmo — Jaron Lanier
Embora o foco pareça ser apenas redes sociais, o cientista da computação Jaron Lanier faz uma análise cirúrgica de como os algoritmos e o design de plataformas (como Steam, Kindle, streamings) são desenhados para nos manter em um estado de busca constante, alterando nossa química cerebral (dopamina) e nossa capacidade de manter o foco em narrativas longas.

4. O Direito de Ler (Ensaio dentro do livro Como um Romance) — Daniel Pennac
O escritor francês Daniel Pennac propõe os "Direitos Imprescritíveis do Leitor", e entre eles estão o "Direito de não ler", o "Direito de pular páginas" e, crucialmente, o "Direito de não terminar um livro". É uma leitura leve e libertadora sobre recuperar o prazer estético sem a culpa produtivista.

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