Contra-cultura analógica

04/07/2026 Tecnologia

Escrevo em 2026, com base em minhas experiências hoje neste tópico. A realidade é que hoje estamos vivendo uma trend analógica que deriva diretamente do pós-pandemia de 2020. Ao menos na internet, a produção de material voltado a coleções e ao comércio de produtos usados, principalmente de décadas atrás, é algo que impera hoje, e principalmente nos anos pós-pandemia.

Antigamente, canais com bookhauls gigantes, coleções de livros, vinis, CDs, DVDs, Blu-rays, etc. não eram a norma. Hoje as novas gerações, principalmente os nascidos após 2010, estão buscando resgatar memórias de infância, ou até mesmo resgatar uma nostalgia de anos antes de seu nascimento. Uma falsa nostalgia.

Tudo começou porque em 2020 o mundo se comprimiu em casa, em lockdowns, em consumo do digital. Novos parâmetros surgiram, o trabalho home-office se popularizou, a videochamada se tornou normal, Discord, reuniões e aulas, cursos inteiros digitais. O EAD como forma de educação acessível surgiu. Formas baratas de comunicação e comunicação por redes sociais cada vez mais imediatistas com a criação do TikTok, que apareceu solapando o Snapchat e Instagram, e a criação do feed de vídeos rápidos que contaminou todas as redes sociais e criou o conceito de brain-rot em 2024.

Mas a pandemia passou e, sempre que há uma mudança cultural, haverá uma contracultura. Este conceito foi cunhado por Theodore Roszak nos anos 50-60, revelando mudanças significativas de paradigma para contrapor uma norma estabelecida. O digital foi estabelecido pela pandemia, terra devastada; o que resta é o culto ao analógico agora.

Vamos voltar a uma realidade do passado. Misturando nostalgia e mídias antigas, hoje temos no cinema remakes de filmes dos anos 80 e 90, nos gadgets, o retorno dos MP3 e discmans... e a lista não termina. Jogos remakes das eras 8, 16 e 32 bits surgem a todo instante. Os vinis voltaram com tudo no pós-pandemia. Taylor Swift lança vinis colecionáveis em cores diferentes, um produto da modernidade, caro, de nicho, colecionável e completamente voltado ao analógico.

O mercado de usados se aquece neste momento. Até no Brasil esta contracultura já chegou: pessoas comprando câmeras antigas, o uso de filmes e revelações, ou mesmo pessoas com cybershots e gravadores portáteis digitais dos anos 2000. O ponto é que este material mais antigo carrega consigo uma nova estética. Filmes e fotos em papel são diferentes de fotos tiradas em câmeras atuais ou nos celulares. E não tem filtro que replique a experiência DIY.

O estalo na música de vinil antigo, poder ler as letras das músicas no encarte, ou mesmo colecionar CDs... É uma trend atual; não sei quanto mais durará, mas já se estabilizou.

Os mais jovens buscam uma relação offline, substituindo tempo de celular por tempo offline. Crochê, quebra-cabeça, board games, amigurumi, sketchbook, clubes do livro, xadrez, pintura (Bobbie Goods), zines, bullet journal, desenho, encontros presenciais, esportes ao ar livre, livrarias, museus, shows, bares, eventos.

Tudo que possa substituir o celular e o excesso do digital de tempos pandêmicos agora surge como resposta a um problema. Um problema claro: estamos tempo demais em nossas telas, as redes sociais já não respondem tão bem quanto há 10 anos, a propaganda em tudo e em todo momento não é mais cultuada como antigamente. Estamos em uma era de fuga do que as bolhas digitais nos criaram, em busca de uma realidade pré-internet.

Neste contexto pré-internet, a nostalgia dos anos 90 e anteriores impera e tudo é produto. Tudo voltado hoje para faixas etárias que viveram neste tempo, e que hoje possuem entre 35 e 50 anos de idade. É um mercado, uma lembrança de algo que nunca voltará. Comércio milionário de cartas de Pokémon e Magic dos anos 90, de bonecos do G.I. Joe, LEGOs e Tartarugas Ninja dos anos 80, de tudo que você queria quando criança e não tinha condições. Mas agora você tem condições, amigão, vá lá comprar um Game Boy Color original com Pokémon Red/Blue. Vá lá comprar um PlayStation e os jogos que desejava e não podia. Não importa o que for, vá lá e compre.

O mercado analógico é muito mais amplo que apenas uma nostalgia. É uma série de produtos e experiências criadas para novamente te gerar mais expectativa, mais metas e objetivos e, principalmente, mais produtos a se comprar. E mesmo as gerações modernas possuem uma falsa nostalgia por eras que não viveram. O capitalismo cria expectativas e lembranças falsas em busca de uma realidade que destoe da atual digital.

É hora de consumir, não apenas comprar produtos usados; hardware, software, tudo está disponível, basta ter dinheiro e tempo para calibrar aquela agenda digital dos anos 90 que é infinitamente pior que um celular de hoje em dia, mas que a nostalgia te fez comprar. Compre, não pare, e quando a contracultura terminar, volte ao digital. O digital irá retornar. Em 5 ou 10 anos. Até lá, ande com seu walkman ouvindo Michael Jackson e jogue seu Game Boy Advance enquanto assiste ao novo filme live-action do He-Man ou a algum remake antigo de filmes dos anos 90 como O Rei Leão.

E isso que nem entrei no monstro do armário, a I.A., mas isso é tema para outro texto.

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