Hoje na escola tive a seguinte situação. Prova de Português, levei meus 3 alunos de atendimento especializado para realizar a prova na biblioteca. Com consulta, e visto que era um atendimento especializado consultei no caderno e na internet.
Fui explicando questão por questão, lendo com cuidado e pedindo a interpretação dos alunos. O tema era Morfologia, aquela fabulosa aula que descrevo aqui no post #0073. Ou seja, os alunos sabiam pouco.
A prova estava difĩcil e foi um apanhado de questões de vestibular e ENEM, no geral eu achei desproporcional com o que eles sabiam, mas fui com calma. Li os enunciados, as opções, pesquisava a classe gramatical de cada palavra, explicava, oferecia opções para os meus alunos de acordo com a interpretação deles.
Não dei as respostas de forma fácil, eu poderia simplesmente usar IA e buscar as questões na internet, mas reconheci que entregar a prova seria tolice minha. Auxiliei, expliquei e gerei um ambiente de descoberta mesmo com o baixo conhecimento dos meu estudantes no tema.
Eis que enquanto estou explicando a aluna disse que já tinha respondido tudo. Olhei e ela estava verificando tudo com IA pelo celular. Um 10 imediato, claro, sem dúvida. E sem conhecimento algum adquirido. Um 10 falso dado em segundos por uma máquina.
Falei para ela não utilizar IA, que em condições reais de prova, seja vestibular e ENEM ela não teria estas facilidades. E expliquei que eu estava tentando ser justo na avaliação, auxiliando mas acreditando no potencial e no conhecimento dos alunos.
Ela ficou muito abalada e não falou mais comigo, depois retrucou, reclamou… mas sem a real noção do que havia feito. Esta mesma aluna já me entregou textos escritos completamente por IA.
Eu me pergunto, quem ganha algo nisto? Fiquei chateado pela pressa da aluna em obter resultados corretos e imediatos. Não acho que é um problema geracional, mas relacionado ao atual uso da tecnologia, imediata, correta, perfeita. Reflexão zero, aprendizado nulo, educação e ensino jogado de lado por respostas corretas a custos de um emburrecimento programado. E o aluno gosta, aplaude, quer sua nota máxima.
Aprender é um processo custoso e demorado, com mais frustrações que sucessos. Aprender não é imediato. Exige transformação, novas conexões neuronais, novas habilidades geradas, reinterpretações da realidade, leitura de mundo, descobertas.
Não entendo a modernidade, que transforma alunos em escravos de IA. Isto não acontece só com esta aluna, vejo apresentações de trabalhos criadas por IA em segundos e uma inaptidão em explicar oralmente o tema, veja textos copiados, vejo até mesmo professores que para facilitar geram provas por IA. Está tomado e só vai piorar.
Quem sabe estudar vai resistir, aprenderá e dominará a informação. Replicar uma IA, não saber fazer uma pesquisa, não conseguir ler um livro ou artigo, não ligar pontos e ideias. E o pior, depender de uma máquina para pensar e depois atuar como papagaio de informação, sem reflexão… É triste ao meu ver, e sei que esta situação de hoje se repetirá muito na minha docência.
Voltar para o Início